Entrevista com o tradutor Luíz Horácio Pinto Rodrigues
Intersecção de Tradução e Psicanálise
Foto: Rede social do Luíz Horácio Pinto Rodrigues (Facebook)
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Luíz Horácio Pinto Rodrigues é colaborador de diversos jornais em seções de literatura e prefaciador de obras literárias de diversos autores, além de tradutor. Tem experiência em literatura, especificamente nos temas autoficção, memória, regionalismo, realismo mágico e fantástico. Formado psicanalista pelo IBPC (Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica), atualmente atua em consultório e também trabalha como professor, escritor e artista visual. Possui Licenciatura Plena em Letras pelo Centro Universitário da Cidade e Mestrado em Letras - Linguagem, Interação e Processos de Aprendizagem pelo Centro Universitário Ritter dos Reis (2011). Autor das obras “Perciliana e o pássaro com alma de cão” (2006), “Nenhum pássaro no céu” (2008), “Pássaros grandes não cantam” (2010), “Doralina - uma tardia declaração de amor” (2014), “Thelma” (2015), “Beatriz. Viver é por enquanto” (2016) e “Cicatrizes do abandono” (2021).
1. Na sua trajetória de vida, você já passou por diversos outros cursos de ensino superior, mas o que te levou a se tornar tradutor e psicanalista?
O que direi pode depor contra mim, conforme vemos nos filmes policiais “produzirei provas contra mim”, mas como negar as evidências? Iniciei diversos cursos superiores e concluí a Licenciatura em Letras/Literaturas, logo depois mestrado na mesma área e um doutorado inconcluso em Teorias da Tradução. Quando comecei a traduzir já tinha minha carreira de escritor em desenvolvimento, importante ressaltar que toda tradução implica um autor, o responsável pela reinvenção, pela resignificação da obra. A relação de poder, editora e tradutor, autoridade e obediência, requer aprofundado exame. Conforme Lefevere (1992), a tradução tem relação com autoridade e legitimidade e, em última análise, com poder. A tradução é um canal aberto, muitas vezes com algumas resistências, pelo qual as influências estrangeiras podem penetrar na cultura local, desafiá-la e até mesmo contribuir para subvertê-la. Segundo Berman (1984): J’appelle mauvaise traduction la traduction qui, généralement sous couvert de transmissibilité, opere une négation systématique de l’étrangeté de l’oeuvre étrangère. Entendo que ao realizar uma tradução está implícito um exame da relação entre poder e verdade (tradução). Não se trata de combater o poder, apontar o que ele nega, mas sim compreender como ele é exercido. Nos trabalhos apresento algumas de minhas escolhas que diferem das traduções anteriores, quando se trata de retradução, o que vem a comprovar a “dinastia inimiga”, conforme Borges (2005). A psicanálise surgiu depois, estudo há muito tempo, bem antes de realizar a formação, e depois de muito estudo, o que continua, me senti apto a atender, a colocar em prática esse maravilhoso e instigante trabalho. Estudar e tentar a mente é um privilégio, e quando percebo que consegui auxiliar uma pessoa a sentir-se um pouco mais segura, confiante em si, a satisfação, o sentir-se em paz, sentir-se útil, é uma sensação indescritível.
2. Você trabalha com textos que possuem forte carga emocional como em “Doralina - uma tardia declaração de amor" (2014). Como a sua experiência como autor e tradutor te ajuda a “traduzir” os seus sentimentos e dos seus analisandos?
Minha concepção da psicanálise foge um pouco o tão decantado lugar comum que faz do analista um ser desprovido de emoções. Não acredito nisso e reputo de fundamental importância o amor nesta relação. Sendo assim não traduzo o sentimento dos meus analisandos, procuro me colocar no lugar deles e entender o quanto aquilo, que por vezes o incomoda, é importante. Entendo que tudo que signifique em nossa vida deva passar pelo sentimento.
3. Consegue dizer se a experiência clínica com a escuta psicanalítica influencia suas traduções?
A psicanálise, ser psicanalista, é uma satisfação que você ou qualquer pessoa que não viva e sinta como eu sinto não entenda a amplitude disso em minha vida. Sou psicanalista full time, mas não no sentido de analisar todo mundo que conversa comigo, mas no que diz respeito estar à disposição de quem necessite de minha atenção. Isso é extremamente motivador, “eu sou”, extremamente importante, daí resulta uma confiança que permite a escuta psicanalítica e a possibilidade de poder contribuir com aquele que me solicita. E obviamente a psicanálise está presente em todas minhas ações, não seria diferente com a tradução, principalmente quando o tradutor precisa “entender” um personagem para encontrar a palavra adequada para traduzir o que ele disse, por vezes essa busca não é tão fácil. Em minha tradução de “Gargantua", de François Rabelais, isso ocorreu várias vezes. Um texto, acredita-se de 1532, repleto de neologismos e a linguagem daquela época. Algumas palavras não traduzi e fiz uso de nota pois não sou adepto das adaptações, me soa um tanto desleal com o leitor. Como disse anteriormente, sou psicanalista full time, logo a psicanálise influencia sim, creio que, o mais importante, me faça mais seguro.
4. Na sua trajetória como autor e tradutor, você percebe um trânsito entre esses dois lugares? Como um processo tem afetado o outro ao longo do tempo?
Em meus livros trabalho com a autoficção, o real combinado com a ficção, a tradução também é isso, o real - o tradutor, e a ficção - a obra em questão. Isso num sentido genérico, mas o quesito mais importante diz respeito à obrigatoriedade de esses profissionais terem a ambição inesgotável de aprender, aprender, estudar sempre. Ambos carregam imensa responsabilidade, já fiz versões francesas de livros de outros autores e também de alguns livros de minha autoria bem como de artigos, sempre procurei ser “o mais fiel possível”, não sou adepto do adágio traduttore/traditore.
5. E qual é o maior desafio ao traduzir textos que misturam realidade e fantasia?
O desafio, no meu caso, é comum a todas traduções, ser o mais fiel possível, é ter sempre em mente essa responsabilidade: estou mexendo no trabalho de uma outra pessoa e não posso desvirtuá-lo, não importa se romance, ensaio, literatura infantil, a responsabilidade é a mesma. Trata-se, você perguntou como a psicanálise entra no trabalho de tradutor, daquilo que não canso de dizer: respeito. Não existe relação que prospere se não existir respeito em primeiro lugar. Tradutor e psicanalista têm isso, também, em comum.
6. Na sua opinião, qual é a maior dificuldade que se encontra hoje no mercado da tradução?
Todos os mercados têm suas vantagens e suas dificuldades, talvez o maior obstáculo seja aquele que se refere ao desrespeito com a tarefa. Repare que respeito está sempre na ordem do dia. Editora que barganha preço, não leva em conta a tabela pois sabe que sempre encontrará alguém que aceitará o que ela estipular, a ausência de ética, a desunião dos profissionais, o lucro em detrimento da qualidade, alguém dirá que isso faz parte da concorrência, com o que não concordo. O capitalismo estimula o baixo investimento na intenção de lucro maior, esse é o grande problema.
Autores: Alice Castro, Diogo Andrade, Felipe Fauri, Fernando Dias, Helena Schaffner
