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O Papel de Parede Amarelo

De Charlotte Perkins Gilman
 

Não era todo dia que pessoas comuns, como John e a esposa, conseguiam passar o verão em uma mansão ancestral.

A mansão colonial, daquelas bem antigas, que parecia assombrada, era uma verdadeira herança! Viver ali e viver o auge do romance… parecia pedir demais do destino, não é mesmo? 

Era o que pensava a esposa de John, a quem — ninguém jamais soube seu nome —  aqui chamaremos de ela. 

Ela, que orgulhosamente sabia que havia alguma coisa muito estranha naquela casa.  

Caso contrário, por que estaria disponível por tão pouco? Ou por que teria ficado tanto tempo desocupada?

John ria dela — o que não a surpreendia, afinal, era o tipo de coisa que ela já esperava de um casamento.

John era um homem prático ao extremo. Uma pessoa que não tinha paciência com a fé, se horrorizava com a superstição e zombava abertamente de qualquer coisa que não pudesse ser vista, sentida e traduzida em números. 

John era médico e, na opinião da esposa — uma confidência que ela fazia apenas em seus diários, certa de que nunca seriam lidos —, ele era uma das possíveis razões pelas quais sua própria saúde não melhorava.

Até porque, ele não acreditava que ela estava realmente doente. 

E o que ela poderia fazer? 

Se um médico de grande reputação, e o próprio marido, convenceu amigos e parentes que não havia nada de errado com ela, a não ser uma depressão nervosa e temporária (uma ligeira tendência histérica), o que ela poderia fazer? O irmão dela, também médico, igualmente renomado, dizia o mesmo. Então ela tomava fosfato, fosfitos (ou qualquer coisa assim), tônicos, ar, fazia caminhadas e exercícios. E, também, estava terminantemente proibida de “trabalhar” até que estivesse bem novamente. 

Pessoalmente, ela discordava das ideias deles. 

Pessoalmente, ela acreditava que um pouco de trabalho, com um pouco de emoção e mudanças, lhe faria bem.  

Mas o que ela poderia fazer?

Ela continuou a escrever por um tempo, apesar das recomendações deles, mas aquilo realmente lhe deixava muito exausta - ter de ser tão astuta para esconder isso, ou então ter de enfrentar uma grande oposição.

Às vezes refletia que seria bom, para alguém em sua condição, ter menos conflito e mais convívio social e estímulo - mas John lhe dizia que essa era a pior coisa que ela poderia fazer: pensar sobre a sua doença. E isso sempre a deixava triste. 

Então, para espairecer, a esposa gostava de escrever sobre a casa. Um lugar maravilhoso! Bastante solitário, bem distante da estrada, a cerca de cinco quilômetros da vila. Que a fazia pensar sobre as residências inglesas sobre as quais lia, com cercas vivas, muros, portões trancados, e vários pequenos alojamentos destinados a jardineiros e empregados.

Fora o jardim delicioso! Ela nunca vira nenhum como aquele — grande e sombreado, cheio de caminhos cercados por canteiros e ladeados por longos arcos cobertos de parreiras.

Outrora existiram estufas, mas haviam se quebrado.

A moça sabia que existiram problemas legais, algo relacionado aos herdeiros e co-herdeiros; de qualquer forma, o lugar permaneceu vazio por anos.

Pensar sobre isso acabava com o aspecto fantasmagórico da casa, mas ela não se importava, porque havia algo de errado com aquele lugar e ela podia sentir. 

Até chegou a comentar isso com John numa noite de luar, mas ele insinuou que, na verdade, o que ela sentia era uma corrente de ar e então fechou a janela. 

Ela frequentemente se irritava com John, embora muitas vezes achasse que essa raiva não tinha motivo real — o que, certamente, devia estar ligado à sua doença nervosa. 

Mas John dizia que se ela se sentisse dessa forma, estaria negligenciando o autocontrole adequado. Assim, se esforçava para se controlar — na frente dele, ao menos, — e isso a deixava muito cansada.

Ela não gostava nem um pouco do quarto onde dormiam. Preferia um que ficasse no andar de baixo, de frente para a varanda e tivesse rosas cobrindo toda a janela. Ah, e seria tão bom se tivesse lindos cortinados! Mas John não dava importância a essas coisas.

Ele dizia que o quarto de baixo tinha apenas uma janela, era pequeno demais para acomodar duas camas e não havia outro cômodo por perto que ele pudesse usar.

John era muito cuidadoso e amoroso, e dificilmente permitiria que a esposa se agitasse sem motivos.

Ela tinha uma prescrição programada para cada hora do dia; que ele cuidava de cada detalhe. Ele era um marido tão bom e tão cuidadoso, ela pensava. E chegava a se sentir ingrata e maldosa por não valorizar tanto esforço por ela. 

Ele disse que só tinha escolhido aquela casa por causa dela, para que descansasse e pegasse todo o ar que pudesse. 

"Seu exercício depende da sua força, querida", disse ele, "e sua comida do seu apetite; mas o ar você pode absorver todo o tempo". Portanto, o casal acabou ocupando o quarto de bebê, na parte superior da casa.

O quarto era grande, arejado, ocupando quase todo o andar. As janelas, com vista para todos os lados, permitiam a entrada de ar e luz abundante. Ela achava que, primeiro, o quarto teria sido um berçário, depois uma brinquedoteca e, então, uma pequena academia. Pois, as janelas tinham grades para crianças, assim como argolas e outros apetrechos pendurados nas paredes.

A pintura e o papel de parede pareciam ter sido usados por uma escola de meninos.

O papel havia sido arrancado em grande parte da parede. Na parte da cabeceira, no outro lado do quarto, tanto em cima como embaixo. Ela nunca havia visto um papel de parede tão feio na vida. 

Um daqueles padrões extravagantes que se espalham e cometem todos os pecados artísticos.

Era tedioso à primeira vista, mas também irritava qualquer um que prestasse atenção à sua cor chamativa. E quando seguia-se as curvas incertas e imperfeitas, de repente elas se afundavam em ângulos extravagantes, se espalhando e se destruindo. 

Aquele amarelo era como um repelente, revoltante, um tom sujo, estranhamente desbotado, que transformava-se lentamente pela luz do sol. 

Em algumas áreas, parecia ser alaranjado, de um jeito tedioso, porém, que brilhava em alguns pontos, e em outros, parecia ter a cor esquisita de enxofre, meio doentia. 

Não era surpresa nenhuma que as crianças não gostassem daquele quarto estranho.  Na verdade, qualquer um que tivesse que passar muito tempo ali provavelmente acabaria detestando-o — até ela, se tivesse que ficar ali por mais tempo.

Então, a moça se apressou, porque John já estava voltando e ela precisava dar um jeito de esconder o papel e o tinteiro. O marido não gostava nem um pouco de vê-la escrevendo, nem mesmo uma palavra. Pois, achava que lhe fazia mal. 

Já estavam naquela casa há duas semanas. Desde o primeiro dia, ela ansiava por escrever sobre tudo aquilo. E, então, sentada perto da janela, no alto da casa, naquele antigo berçário esquisito, nada podia impedi-la de escrever. Exceto o cansaço que, às vezes, lhe roubava as forças. 

John ficava fora o dia inteiro, e até mesmo algumas noites, quando seus casos eram muito graves. 

Ela ficava feliz por seu caso não ser grave!

Mesmo assim, aquele estado de nervos a deixava desanimada. 

E John não entendia como ela sofria. Ele só dizia que sabia que não havia razões para sofrer e isso era o suficiente. 

É claro que era só nervosismo. Mas pesava muito sobre ela não cumprir seu afazeres de forma alguma!
Ela queria tanto ajudar John a descansar — mas ali estava ela, virando um fardo em comparação!

Ninguém acreditaria no esforço que era para fazer o pouco que conseguia — se vestir, entreter as visitas, essas coisas.

Ainda bem que Mary era tão boa com o bebê. Um bebê tão adorável!

E, mesmo assim, ela não conseguia ficar com ele… ficava nervosa demais.

Ela achava que John nunca tinha ficado nervoso na vida. Ele ria tanto dela por causa daquele papel de parede!

Antes, ele até ia trocar o papel, mas depois disse que ela estava deixando aquilo incomodá-la demais, e que não era bom ceder às vontades de uma paciente nervosa.

Disse que depois teria que trocar a cama pesada, a janela gradeada, o portão no topo da escada, assim por diante.

“Você sabe que esse lugar está lhe fazendo bem”, ele disse. “E, sinceramente, querida, eu não quero reformar a casa toda por um aluguel de três meses.”

“Então vamos ficar no andar de baixo”, ela pediu. “Tem quartos tão bonitos lá.”
Então ele tomou ela nos braços, a chamou de sua “abençoada bobinha” e disse que desceria até o  porão se ela quisesse — e que mandaria pintar tudo de branco, se fosse o caso.

Mas ele tinha razão sobre as camas, as janelas e essas coisas.

Era um quarto arejado e confortável, como qualquer um desejaria, e é claro que ela não queria deixar seu esposo desconfortável por um capricho.

Ela estava até começando a gostar do quarto — mas ainda se sentia incomodada pelo papel de parede horrível.

De uma das janelas, ela via o jardim misteriosamente sombreado, as flores antigas e desordenadas, os arbustos e árvores retorcidas.

De outra, tinha uma linda vista da baía e de um pequeno cais particular que pertencia à propriedade. Havia uma bela rua sombreada que descia da casa até lá. Ela sempre imaginava ver pessoas caminhando por lá — mas John dizia para ela não se deixar levar pela imaginação.

Ele dizia que, com seu hábito de inventar histórias, sua condição nervosa com certeza levaria a todo tipo de sonhos agitados, e que ela devia usar sua força de vontade e seu bom senso para lutar contra isso.

Então ela tentava.

Às vezes pensava que, se pelo menos estivesse bem para escrever um pouco, aliviaria a pressão das ideias e conseguiria descansar.

Mas percebia que se cansava muito quando tentava.

Era tão desanimador não ter ninguém com quem conversar ou pedir conselhos sobre o trabalho. Quando melhorasse, John disse que chamaria o primo Henry e Julia para uma longa visita. Mas também dizia que convidar pessoas tão estimulantes naquele momento seria como colocar fogos de artifício debaixo de seu travesseiro .

Ela só queria melhorar logo.

Mas não devia pensar nisso, pois começava a pensar naquele papel de parede curioso.

Havia um ponto recorrente onde o padrão pendia como um pescoço quebrado e dois olhos olhavam de cabeça para baixo.

Ela ficava bastante irritada com essa inconveniência e com sua permanência eterna. Para cima, para baixo, para os lados — as formas pareciam andar, e aqueles olhos curiosos, sem piscar, estavam em toda parte. Havia um lugar onde duas faixas não combinavam, e os olhos subiam e desciam pela emenda, um um pouco mais alto que o outro.

Nunca tinha visto tanta expressão em algo sem vida antes — e todos sabiam o quanto essas coisas podiam ser expressivas!

Quando criança, a moça costumava ficar acordada e se divertir — e assustar — mais com paredes e móveis do que a maioria das crianças em uma loja de brinquedos.

Lembrava que um dos puxadores da cômoda velha pareciam piscar gentilmente, e de uma cadeira que sempre lhe pareceu uma grande amiga.

Sentia que, se algum dos móveis parecesse ameaçador demais, podia correr para aquela cadeira e ficar segura.

Os móveis eram apenas desarmônicos, já que tiveram que trazê-los do andar de baixo. Ela achava que, quando o quarto foi usado como brinquedoteca, tiraram os berços — e com razão! Nunca tinha visto tantas marcas de destruição quanto as que as crianças deixaram ali.

O papel de parede, como já dissera, estava rasgado em vários pontos — e agarrava-se mais do que um irmão; aquelas crianças deviam ter tanta perseverança quanto raiva.

O piso estava riscado, escavado e com farpas; o próprio reboco tinha sido arrancado em alguns lugares; e a enorme cama, a única coisa que encontraram no cômodo, parecia ter saído de uma guerra.

Mas nada disso a incomodava — apenas o papel.

Lá vinha a irmã de John. Que moça querida, e tão cuidadosa com ela! Ela não podia deixar que a encontrasse escrevendo.

A cunhada era uma dona de casa perfeita, e não aspirava a nenhuma profissão melhor. Acreditava mesmo que fora a escrita que adoecera a moça!

Mas ela podia escrever enquanto Jennie saía — conseguia vê-la de longe por aquelas janelas.

Uma dava para a estrada, bela e sombreada, a outra para o campo. Um campo encantador, cheio de grandes olmos e pastos macios como veludo.

Aquele papel de parede tinha um tipo de subpadrão, em outro tom — especialmente intrigante, porque só se via com certos ângulos de luz, e mesmo assim, nem sempre.

Mas onde não estava desbotado, e quando o sol batia do jeito certo, ela conseguia ver uma figura estranha, provocadora, sem forma definida, que parecia se esconder atrás daquele desenho chamativo.

Lá estava a cunhada na escada!

 

 

Bem, o Quatro de Julho tinha passado! As visitas foram embora e ela estava exausta. John achava que lhe faria bem ver um pouco de gente, então convidaram apenas a mãe, a Nellie e as crianças para passarem uma semana.

É claro que ela não fez nada. Jennie cuidava de tudo agora.

Mesmo assim, ela se cansou.

John dizia que se ela não melhorasse logo, a mandaria para o Dr. Weir Mitchell no outono.

Mas ela não queria ir de jeito nenhum. Tinha uma amiga que fora tratada por ele e dizia que ele era exatamente como John e o irmão — só que pior!

Além disso, era um sacrifício tão grande viajar para tão longe…

Ela sentia que não valia a pena fazer o menor esforço para qualquer coisa, e estava ficando terrivelmente rabugenta e birrenta. Ela chorava por tudo e chorava a maior parte do tempo. Claro que ela não fazia isso quando John estava lá, ou qualquer outra pessoa, apenas quando estava sozinha. E, naquela época, ela ficava sozinha com bastante frequência. John constantemente ficava preso na cidade por conta de casos graves, e Jennie era gentil e a deixava ficar sozinha quando ela queria.

Então ela andava um pouco pelo jardim ou descia aquela ruazinha encantadora, sentava-se na varanda sob as rosas e deitava-se bastante lá em cima. A moça estava se apegando ao quarto, apesar daquele papel de parede! Talvez, POR CAUSA do papel de parede. Aquilo grudou nos pensamentos dela! Ela se deitava naquela grande cama imóvel — que estava pregada no chão, pensava — e seguia aquele padrão por horas. Era tão bom quanto ginástica, afirmava. Ela começava, vamos dizer, pela parte de baixo, lá no canto onde o papel de parede ainda não tinha sido tocado, e pela milésima vez decidia que iria seguir aquele padrão sem sentido até chegar a algum tipo de conclusão. Ela sabia o básico sobre design, e sabia que essa coisa não tinha sido planejada de acordo com qualquer lei de radiação, variação, repetição, simetria ou qualquer outra coisa que ela já tivesse ouvido falar. Obviamente, ele se repetia pelas faixas, mas apenas por elas. Vistas de um certo modo, as faixas pareciam isoladas, as curvas inchadas e os arabescos — um tipo de "romantismo degradado" com delírios de abstinência — subiam e desciam em isoladas colunas tolas. 

Mas, por outro lado, elas se conectavam na diagonal, e os contornos espalhados corriam em grandes ondas inclinadas de terror óptico, como se fossem um monte de algas se debatendo durante uma perseguição. Aparentemente, o conjunto todo ia para a horizontal também, e a moça se esgotava tentando distinguir a ordem do que ia para cada direção. Haviam usado uma faixa horizontal como friso, e isso contribui horrores à confusão. Tinha uma ponta do quarto na qual o papel de parede estava quase intacto, e quando a luz cruzada desaparecia e o sol brilhava pouco lá, ela quase podia imaginar a radiação afinal — as intermináveis partes grotescas pareciam se juntar em torno de um centro e se lançar em mergulhos precipitados de distração. Ela ficou cansada ao tentar seguir essas coisas, então decidiu tirar um cochilo. 

 

 

Ela nem sabia o motivo por que escrevia. Ela não queria. 

Não se sentia capaz. 

E sabia que John acharia um absurdo. Mas ela PRECISAVA expressar o que sentia e pensava de alguma forma — era um alívio tão grande!

Mas o esforço estava ficando maior do que o alívio.

Na metade do tempo estava terrivelmente preguiçosa, e nunca havia passado tanto tempo deitada. 

John dizia que ela não podia perder a força, e a fazia tomar óleo de fígado de bacalhau, vários tônicos e outras coisas — para não dizer cerveja, vinho e carne mal passada. 

Doce John! Ele a amava tanto, e detestava vê-la doente. A moça tentou ter uma conversa séria e sincera sobre como ela queria que ele a deixasse visitar o primo Henry e Julia. 

Mas ele respondeu que ela não estava em condições de ir, nem aguentaria após chegar lá. E ela não conseguiu argumentar muito bem, já que estava chorando antes mesmo de terminar de falar. 

Pensar racionalmente estava se tornando um enorme esforço para ela. Era apenas essa fraqueza nervosa, supôs. E o doce John a pegou nos braços, a carregou para o andar de cima e a colocou na cama. Então se sentou ao seu lado e leu para ela até ela cansar. 

Ele disse que ela era a sua querida, o seu consolo e tudo que ele tinha, e que ela deveria se cuidar pelo bem dele, e se manter saudável. Ele disse que ninguém além dela mesma poderia curá-la disso, e que ela deveria usar a força de vontade e autocontrole, além de não deixar que fantasias bobas a dominassem. Havia um conforto: o bebê estava bem e alegre, e não precisava ficar no quarto infantil com esse horrível papel de parede. Se eles não tivessem usado aquele papel, aquela criança abençoada teria que ficar com ele! Que livramento! 

Por Deus, a moça não deixaria o filho dela, uma criaturinha inocente, viver em um quarto assim por nada no mundo. Nunca havia pensado nisso antes, mas, no final das contas, foi bom que John tivesse a mantido ali, pois ela poderia aguentar muito mais do que um bebê. Obviamente, ela nunca mais havia mencionado aquilo para eles — estava esperta demais para isso —, mas continuava vigiando tudo, assim como antes. Havia coisas naquele papel que ninguém além dela sabia, e jamais saberia. 

Atrás daquele padrão externo, as formas escuras ficavam cada dia mais claras. Era sempre a mesma forma, só que muito numerosa. E era como se houvesse uma mulher se abaixando e rastejando atrás daquele padrão. Ela não gostava nada disso. 

Ela se perguntou — começou a pensar — e desejou que John a tirasse de lá!

 

 

Era tão difícil conversar com John sobre o seu estado, porque ele era tão sábio, e porque a amava muito. Mas ela havia tentado na noite anterior. Foi uma noite de luar. A lua brilhava por todo lado, assim como o sol fazia durante o dia. De vez em quando, ela odiava ver aquilo, pois se arrastava tão devagar e sempre entrava por uma janela ou por outra. 

John estava dormindo e ela odiava acordá-lo, então ela permaneceu em silêncio, observando o luar naquele papel de parede com ondas até sentir arrepios. A leve figura por trás parecia agitar o padrão, como se ela quisesse sair de lá. A moça se levantou suavemente e foi verificar se o papel REALMENTE se movia, e quando voltou, John estava acordado.

"O que foi, garotinha?", ele disse. "Não fique andando por aí assim, você vai sentir frio".

Ela pensou que seria um bom momento para conversar, então disse que aquela situação não estava melhorando, e que gostaria que ele a tirasse de lá.

"Mas, querida!", respondeu, "nosso contrato termina em três semanas, e eu não vejo como poderíamos nos mudar antes disso".

“As reformas em casa não estão prontas, e não posso, de jeito nenhum, sair da cidade agora. Claro, se você estivesse em perigo, eu poderia e iria, mas você está realmente melhor, querida, quer perceba ou não. Sou médico, querida, e sei disso. Você está ganhando peso, seu apetite, está melhor, assim fico bem mais tranquilo.

"Não ganhei peso algum", ela disse, “pelo menos, não tanto… e meu apetite pode até ser melhor à noite, quando você está aqui, mas é pior de manhã, quando você não está!"

"Ah, o coraçãozinho dela!", disse ele com um grande abraço, "ela pode ficar doente o quanto quiser! Mas agora vamos aproveitar esse momento para dormir e conversaremos sobre isso de manhã!"

"E você não vai embora?", ela perguntou, um pouco desanimada.

"E como eu poderia, querida? Faltam apenas três semanas e então faremos uma agradável viagem por alguns dias enquanto a Jennie arruma a casa. Querida, você realmente está melhor!"

"Melhor de corpo, talvez...", ela começou, e parou abruptamente, pois ele se sentou e olhou para ela com um olhar tão sério e de reprovação que ela não conseguiu dizer mais nada.

"Minha querida", ele disse, "eu te peço, por mim, pelo nosso filho e por você mesma, que nunca, nem por um segundo, deixe essa ideia entrar na sua cabeça! Para alguém como você, é algo perigoso e muito tentador. É uma fantasia falsa e boba. Você não confia em mim como médico quando eu te digo isso?"

Então, é claro, ela não disse mais nada sobre o assunto e logo dormiram. Ele pensou que ela tinha dormido primeiro, mas ela não estava adormecida. Ficou ali por horas, tentando decidir se aquele padrão da frente e o de trás realmente se moviam juntos ou separadamente.

 

 

Em um padrão como este, à luz do dia, há uma falta de sequência, um desafio às regras, o que está sempre irritando uma mente comum. A cor era feia e mudava tanto que a deixava irritada, quanto mais ela olhava. E para piorar, o desenho do papel fazia ela se sentir confusa, não conseguia definir. Ela pensava que o dominava, mas logo que abaixava a guarda, ele dava um salto e lá estava ela de novo. Ele dava um tapa na cara dela, a derrubava e a pisoteava. Era como um pesadelo

O padrão era um desenho muito elaborado e cheio de voltas, lembrando os caminhos que as minhocas fazem por debaixo da terra. Se você puder imaginar os túneis que as minhocas constroem, uma série interminável deles, se espalhando e se emaranhando em caminhos sem fim – bem, é algo parecido com isso.

Isso, às vezes!

Tem algo muito marcante sobre este papel, algo que ninguém parece notar além dela mesma: ele muda dependendo da luz.

Quando o sol entra pela janela leste – ela sempre observa aquele primeiro raio longo e reto – ele muda tão rapidamente que eu nunca consigo entender direito. É por isso que ela o observa sempre.

Na calada da noite – a lua brilha o tempo todo quando aparece – nem a moça saberia que era o mesmo papel. À noite, sob qualquer tipo de luz – seja na luz do entardecer ou da alvorada, na luz de velas ou da lamparina e até na luz da lua – ele se transforma em barras! Ela observa que o padrão por trás dele fica o mais nítido possível.

Ela não percebia o que era aquilo por trás, um padrão mais fraco, diferente do original, mas agora ela tinha certeza de que era uma mulher. À luz do dia, ela fica contida, quieta. A moça imaginava que era o padrão que a mantinha tão parada. Era tão intrigante. Isso a deixava quieta por horas.

Ela passava muito tempo deitada agora. John dizia que era bom para ela, dormir o máximo que pudesse.

De fato, ele começou o hábito, fazendo ela se deitar por uma hora depois de cada refeição.

Era um péssimo hábito, ela tinha certeza, porque ela não dormia.

E assim aprendeu a omitir, porque ela não contava para eles que estava acordada – Claro que não.

O fato é que ela estava começando a sentir um pouco de medo de John. Ele parecia muito estranho às vezes e até Jennie tinha um olhar de desconfiança.

De vez em quando, apenas como uma hipótese científica, ela pensava: talvez seja o papel de parede!

Ela observava John quando ele não sabia que ela estava olhando e entrava no quarto de repente com as desculpas mais inocentes. E o pegou várias vezes olhando para o papel de parede. Jennie também. Ela pegou Jennie com a mão nele uma vez.

Ela não sabia que a moça estava no quarto, e quando ela perguntou em voz baixa, muito baixa, com a maneira mais contida possível, o que ela estava fazendo com o papel – Jennie se virou bruscamente, como se tivesse sido pega roubando, e, irritada, disparou: 'Por que me assustou desse jeito!

Então Jennie disse que o papel de parede manchava tudo o que tocava. Ela tinha encontrado manchas amarelas nas roupas da moça e nas de John, e pedia que eles tivessem mais cuidado!

Será que aquilo soou inocente? A moça sabia que Jennie estava estudando aquele padrão e ela estava determinada que ninguém mais o descobrisse.

A vida agora era muito mais emocionante do que costumava ser. Ela tinha algo mais para esperar, para ansiar, para observar. Ela realmente comia melhor e estava mais quieta do que antes.

John estava tão satisfeito em vê-la melhorar! Ele riu um pouco outro dia, e disse que ela parecia estar "florescendo" apesar do papel de parede.

Ela disfarçou com uma risada. Não tinha intenção de dizer a ele que era tudo por causa do papel de parede – ele zombava dela. Ele poderia até querer levá-la embora.

No entanto, ela não queria sair agora, não até que tivesse descoberto tudo. Havia mais uma semana e ela achava que seria o suficiente.

 

 

Ela se sentia muito melhor! Não dormia muito à noite, porque era tão interessante observar aqueles acontecimentos, mas dormia bastante durante o dia.

Durante o dia era cansativo e confuso. Havia sempre novos túneis e tons de amarelo para analisar. Ela não conseguia acompanhar, embora tivesse tentado com dedicação.

Era um amarelo muito estranho, naquele papel de parede. Fazia a moça pensar em todas as coisas amarelas que ela já tinha visto – não as bonitas como botões-de-ouro, mas coisas amarelas velhas, nojentas e ruins.

Mas havia algo mais sobre aquele papel - o cheiro! Agora que tiveram uma semana de neblina e chuva, e independente de as janelas estarem abertas ou não, o cheiro estava ali. Ela o encontrava, pairando na sala de jantar, esgueirando-se na sala de estar, escondendo-se no corredor, esperando por ela nas escadas. Ele grudava no cabelo. Mesmo quando ia cavalgar, se ela virasse a cabeça rapidamente, surpreendendo-o, lá estava, aquele cheiro! Um odor tão peculiar. Ela passava horas tentando analisá-lo, para descobrir o que mais podia cheirar como aquilo. Não era tão ruim - a princípio, é muito suave, porém o odor mais sutil e duradouro que já havia conhecido. Naquele tempo úmido, era horrível, acordava à noite e via o cheiro pairando sobre ela. 

Costumava perturbá-la no início. Ela pensou seriamente em queimar a casa - para sumir com o cheiro. Mas agora estava acostumada. A única coisa que conseguia pensar que se parecia era... Com a COR do papel! Um cheiro amarelo. Havia uma marca muito engraçada na parede, bem embaixo, perto do rodapé. Uma linha que percorria a sala. Ela passava por trás de cada mobília, exceto pela cama, uma MANCHA longa, reta e uniforme, como se tivesse sido esfregada de novo e de novo. Ela se perguntava como foi feita, quem a fez, e por que fizeram. Ao redor e ao redor e ao redor - ao redor e ao redor e ao redor - deixava ela tonta!

 

 

A moça descobriu algo, finalmente.

Por observar tanto a mancha à noite, ela finalmente descobriu. A mancha se movia, e não era de se admirar! A mulher, atrás da parede, movia a mancha! Às vezes, ela achava que havia muitas mulheres lá atrás, e às vezes apenas uma. Ela rastejava rápido, e ao se rastejar, sacudia tudo. Então, nos pontos mais brilhantes, ela ficava parada, e nos pontos mais sombrios, ela apenas segurava as barras e sacudia com força. E ela estava o tempo todo tentando atravessar, escalando. Mas ninguém poderia passar por aquele padrão no papel - ele era sufocante; achava que era por isso que ele tinha tantas cabeças. Elas passavam, e então o padrão do papel as estrangulava e as viravam de cabeça para baixo, deixando seus olhos brancos! Se as cabeças fossem cobertas, ou arrancadas, seria um alívio.

 

 

A moça pensava que aquela mulher saía durante o dia. Porque, secretamente, a moça a havia visto! Ela podia vê-la de cada uma das suas janelas! Era a mesma mulher, ela sabia disso, pois ela estava sempre se arrastando, e a maioria das mulheres não se arrasta à luz do dia. Ela a via naquela longa estrada sob as árvores, se arrastando no caminho, e quando uma carruagem vinha, a mulher se escondia sob as vinhas de amora. A moça não a culpava. Devia ser muito humilhante ser pega se arrastando à luz do dia! Ela sempre trancava a porta quando se arrastava durante o dia. Não podia fazer à noite, pois sabia que John suspeitaria de algo imediatamente. E John estava tão estranho agora, a moça não queria irritá-lo.  Ela gostaria que ele ficasse em outro quarto! Além disso, não queria que ninguém tirasse aquela mulher de lá à noite, a não ser ela mesma. Muitas vezes se perguntava se poderia vê-la de todas as janelas, ao mesmo tempo. Mas, ainda que virasse o mais rápido que podia, só conseguia ver de uma janela de cada vez.

A moça observava a mulher às vezes no campo aberto, se arrastando tão rápido quanto uma sombra de uma nuvem em um vento forte. 

 

 

Se ao menos aquele padrão superior pudesse ser tirado de cima do de baixo! Ela pretendia tentar, pouco a pouco. A moça descobriu outra coisa engraçada, mas não vai revelar desta vez! Ela achava que não era bom confiar demais nas pessoas. Havia apenas mais dois dias para poder tirar aquele papel, e ela acreditava que John estava começando a perceber. Ela não gostava do olhar dele. A moça ouviu ele fazer muitas perguntas profissionais à Jennie sobre ela. Jennie tinha um relato muito bom a prestar. Jennie disse que ela dormia bastante durante o dia. John sabia que a moça não dormia muito bem à noite, apesar de estar tão quieta! Ele fazia todo tipo de perguntas à moça também, e fingia ser muito amoroso e gentil. Como se ela não pudesse ver suas reais intenções! Ainda assim, ela não se admirava que ele agisse assim, dormindo sob este papel de parede por três meses. Ele só interessava à moça, mas ela tinha certeza que John e Jennie eram secretamente afetados por ele.

 

 

Viva! Este era o último dia, mas já era suficiente. John ia ficar na cidade durante a noite, e não iria embora até o início da noite. Jennie queria dormir com ela - a astúcia! mas ela disse a Jennie que, sem dúvida, descansaria melhor durante a noite se estivesse completamente sozinha. Foi uma boa ideia, pois, na verdade, a moça não estava nem um pouco sozinha!  Assim que surgiu o luar, a pobre mulher começou a se arrastar e a sacudir o padrão do papel de parede, logo a moça se levantou e correu para ajudá-la. Ela puxou e a mulher tremeu, ela tremeu e a mulher puxou, e antes de amanhecer, elas tinham destruído vários metros daquele papel. Uma ruptura tão alta quanto a cabeça da moça e ao redor de metade da sala de estar. E então, quando o sol raiou e aquele terrível padrão do papel começou a rir da moça, ela declarou que terminaria hoje! Eles iam embora amanhã, e as pessoas estavam movendo toda a mobília para baixo novamente para deixar tudo como estava antes. Jennie olhou para a parede com espanto, mas a moça disse a ela alegremente que fez o que fez por puro despeito da coisa perversa.

Jennie riu e disse que não se importaria de destruí-lo ela mesma, mas a moça não deveria se cansar. Como ela se traiu naquela vez! Mas lá estava a moça, e ninguém tocava naquele papel a não ser ela - não VIVO! Jennie tentou tirar a moça de seu quarto - uma atitude muito autoritária! Mas a moça disse que estava tudo tão quieto, vazio e limpo agora que gostaria de se deitar novamente e dormir o máximo que pudesse; para não acordá-la para o jantar - ela chamaria quando acordasse. Então, agora Jennie se foi, e os servos se foram, e as coisas se foram, e não restava nada além daquela grande armação de cama pregada, com o colchão de lona que vivia grudado nela.

Naquela noite, ela planejava dormir no andar de baixo e voltar para casa de barco no dia seguinte.

O quarto, agora vazio, parecia agradá-la. Era fácil imaginar a bagunça que algumas crianças teriam feito ali. 

A cama parecia ter sido toda roída!

Mas não havia tempo para pensar nisso; o trabalho a aguardava.

Então, trancou a porta e atirou a chave para o lado de fora.

Não queria sair; e não queria que ninguém entrasse até John voltar.

Havia algo que ela queria que ele descobrisse, algo que o deixaria completamente surpreso.

Havia uma corda escondida, tão bem guardada que nem mesmo Jennie havia conseguido achar. Se aquela mulher realmente saísse do papel de parede e tentasse fugir, ela estaria pronta para amarrá-la.

Mas ela esqueceu de um detalhe essencial: ela não conseguiria alcançar muito longe sem algo para subir!

E a cama, por mais que tentasse, não se movia por nada!

Ela tentou levantar, tentou empurrar, tentou puxar… até sentir os músculos doloridos. Começou a se frustrar tanto que, num acesso de raiva, roeu um pedaço da quina da cama - mas isso machucou seus dentes.

Então, ela desistiu da cama e começou a arrancar todo o papel de parede que conseguia alcançar por si. Aquele papel era teimoso, e os desenhos pareciam debochar dela. 

Todas aquelas cabeças estranguladas, todos os olhos esbugalhados e o mofo todo espalhado, tudo parecia rir histericamente dela!

Sua raiva só aumentava, impulsionando-a a fazer alguma loucura. Pular da janela seria um ótimo exercício, pensou, mas as barras eram fortes demais para sequer tentar. 

Mas ela não faria isso. Claro que não. Ela sabia muito bem que se tratava de uma atitude inadequada e facilmente mal interpretada.

Não gostava nem de observar a rua pela janela - havia tantas daquelas mulheres asquerosas lá fora, e elas rastejavam tão rápido!

Pensava: Será que todas elas também tinham saído do papel de parede, assim como ela? 

Mas agora ela estava segura, amarrada pela corda tão bem escondida - ninguém poderia levá-la para a rua.

Imaginava que, quando a noite viesse, deveria se esconder novamente atrás da estampa, mas isso seria difícil.

Estar naquele quarto enorme era tão agradável! Ela estava livre para rastejar o quanto quisesse!

Ela não queria sair dali, nem mesmo se Jennie pedisse.

Afinal, lá fora, ela teria que rastejar no chão, onde tudo era verde, não amarelo.

Mas ali ela podia deslizar pelo chão, e seu ombro se encaixava perfeitamente  naquela marca ao redor da parede, então não tinha como se perder.

De repente, John estava na porta! Por que motivo ele estaria ali?

Era inútil, ele não poderia abri-la! Mesmo assim, ele não parava de bater e chamar por ela.

Insistia por um machado.

Mas que pena seria destruir uma porta tão bonita!

“John, meu amor!” - disse ela, do jeito mais meigo possível - “A chave está lá embaixo, nos degraus da entrada, debaixo de uma folha de bananeira!”

Ele ficou em silêncio por alguns instantes.

Então, falou bem baixinho: “Abra a porta, querida!”

“Não consigo” - ela respondeu. “A chave está lá embaixo, na entrada, debaixo da folha de bananeira!”

Ela repetiu várias, várias e várias vezes, de forma gentil e pausada. Repetiu tanto que, enfim, ele foi ver por si mesmo, até que de fato a achou.

“O que houve?” - o marido exclamou. “Pelo amor de Deus, o que você está fazendo?!”

Ela continuou a rastejar como antes, mas olhou para ele por cima do ombro. 

E respondeu: “Eu finalmente saí, apesar de você e sua irmã. E eu arranquei a maior parte do papel, então você não pode me colocar de volta!”

Por que será que aquele homem desmaiou? De fato, desmaiou, bem no meio do caminho dela. Agora, ela teria de rastejar por cima dele toda vez.

 

Tradução de Alice Alteman, Diogo Ferreira, Fabiana Rocha, Felipe Duarte, Juliana Fagundes, Pedro Arthur

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