Entrevista com o tradutor Rubens Figueiredo
Tradução como uma forma de resistência à colonização.
Foto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo
Rubens Figueiredo é escritor e tradutor formado em letras português-russo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua como professor de português no Ensino Médio e foi professor de tradução literária na PUC-RJ. No meio literário, atua como escritor e tradutor de diversas línguas, como espanhol, inglês, francês e principalmente russo, além de ter escrito diversos livros como “Barco a seco”, vencedor do Prêmio Jabuti de melhor romance, e “Passageiro do Fim do Dia”, entre outros. Na tradução, se destaca por ter vertido para o português livros como “Anna Karenina”, “Oblomov”, "A Ilha de Sacalina”, “Teatro de Sabbath”, "Miguel Street" e diversas outras obras de peso.
1. Professor Rubens, em algumas entrevistas, o senhor já afirmou que o interesse pela cultura russa surgiu por diversos fatores, como a Revolução de 1917, a música russa, a história do país etc… Gostaria de saber como se deu o salto do interesse pela cultura russa para o interesse em tradução dessa cultura. Como o senhor analisa a relação entre cultura estrangeira e tradução no Brasil?
Nem chegou a ser um salto. Jovem, eu comecei a escrever e logo notei que traduzir era uma forma de escrever. Aliás, uma forma bem óbvia! Mas a tradução profissional surgiu mais tarde, em função da necessidade de ganhar a vida com meu trabalho. Por volta de 1990, as editoras no Brasil ampliaram muito o número de publicações e havia necessidade de tradutores de inglês. Como eu havia escrito um ou dois livros, e tive de reduzir à metade meu tempo de trabalho como professor, comecei a traduzir. Só muitos anos depois surgiu a oportunidade de traduzir livros russos. Como minhas traduções do inglês foram bem recebidas nas editoras, a minha sugestão de traduzir livros russos clássicos foi aceita. Claro que a minha sugestão ao editor teve origem no meu forte e contínuo interesse pessoal pelo assunto.
Quanto à segunda parte da pergunta: o Brasil é, para todos os efeitos, uma colônia cultural dos Estados Unidos (e, em grau menor, da Europa), que, em troca de prestígio, divulgação e mesmo dinheiro, compram nossos intelectuais e artistas (sem falar de juízes, militares, jornalistas), por meio do financiamento de fundações e de ongs de nomes bonitos. Mas muitas vezes bastam alguns tapinhas nas costas. Ainda restam alguns redutos isolados de resistência. E é assim que eu vejo a tradução dos clássicos russos. (Embora essa literatura constitua um dos pontos mais altos da cultura da humanidade, como reconheceu Paul Valéry.) Também por isso é importante desenvolver uma visão crítica brasileira, nacional, dessa tradição, uma perspectiva independente, o mais possível, da visão estadunidense e europeia, que também filtra e como que coloniza a literatura e a história da Rússia. Portanto, em síntese, a relação entre cultura estrangeira e tradução no Brasil é determinada pela condição de subordinação colonial do nosso país aos Estados Unidos. A formulação é simples porque a realidade, no fundo, é simples, brutalmente simples. O que é complicado são as mil maneiras, sempre tortuosas, de esconder a realidade.
2. Compreendendo o Brasil e a Rússia, como dois países que se constituíram como impérios periféricos durante o século XIX com destinos diferentes no século XX, o senhor consegue perceber semelhanças no trato da posição da literatura nas respectivas sociedades?
É mais produtivo e esclarecedor entender o Brasil e a Rússia como dois casos de países com enorme potencial de desenvolvimento independente, endógeno, como dizem os economistas. Ou seja, se nenhum fator externo se opuser de forma deliberada, esses países tendem a se desenvolver de modo como que espontâneo, necessário, a partir de recursos próprios. E isso é tido, historicamente, como uma ameaça aos olhos do país dominante no momento, que, em resposta, tenta sabotar de todas as formas aquele potencial de desenvolvimento e, se possível, destruir o Estado nacional nesses países. E não importa o regime político, não importa o sistema econômico, o principal é: esse país não pode se desenvolver. Muitas vezes conseguiu seu intento. Mas nem sempre. A propósito, lembremos as palavras do sinistro Kissinger para o sinistro general Geisel, durante a ditadura militar: A última coisa que os EUA desejam é um Japão na América Latina. Referia-se ao Brasil, que tentava, então, mais uma vez, reforçar instrumentos de desenvolvimento por meio de estímulos estatais. Lembremos também as afirmações reiteradas em livros de conselheiros de Estado dos EUA, como Brzezinski, Kissinger e outros também famosos, mas cujos nomes agora não tenho na ponta da língua, que por décadas a fio (na verdade, há mais de cem anos!) repetem em seu livros e pronunciamentos, ou seja, proclamam publicamente, que a Rússia deve e precisa ser dividida em vários países. Não é possível ser mais explícito do que isso.
A posição histórica da literatura na Rússia é muito diferente daquela que se verifica no Brasil. Um ponto de partida óbvio para entender tal diferença está no fato de o Brasil ser um Estado nacional formado a partir de um processo colonial clássico, completo, com repovoamento quase total do território. A Rússia jamais foi colônia. A luta contra os canatos mongóis, que invadiram a região na idade média, propiciou a formação do Estado nacional russo. Mas os mongóis não eram colonizadores propriamente ditos, limitavam-se a cobrar tributos. É lógico supor que profundas diferenças culturais derivem de circunstâncias tão diversas. A literatura russa foi um instrumento muito exitoso da afirmação e da consolidação do Estado nacional. Graças, de um lado, ao empenho consciente dos intelectuais russos e, de outro lado (a meu ver, isso é o mais importante), às expectativas nacionais da população, que cobravam dos intelectuais realizações tão boas ou superiores às dos países tidos como avançados. A par disso, ainda ao longo do século 19, a Rússia ampliou consideravelmente o seu sistema educacional, cujas bases, aliás, remontam ao século 18. No Brasil, como sabemos, isso não ocorreu. A literatura é, em medida considerável, determinada por fatores dessa ordem.
3. Saindo agora desse debate mais especificamente cultural e adentrando o universo da tradução. O senhor traduziu obras literárias tanto do Russo, como Guerra e Paz de Tolstói, como do inglês também, como O teatro de Sabbath de Philip Roth. Quais são as maiores dificuldades quando se trata de traduzir grandes obras da literatura mundial? A diferença de uma língua para a outra (nesse caso do inglês e do russo) alteram a abordagem de tradução? Existe algum tipo de consulta em traduções passadas para o português ou não?
Toda tradução compreende algum nível de pesquisa. Por isso é importante consultar traduções anteriores. Não acho que Philip Roth possa ser considerado autor de alguma grande obra da literatura mundial. Traduzi mais de cem livros do inglês e, de cabeça, não me lembro de nenhum a respeito do qual se possa dizer tal coisa. Estou convencido de que a maior dificuldade para traduzir literatura artística – digamos assim, pois parece ser esse o objeto da sua pergunta -- reside no domínio (o mais amplo possível) da língua portuguesa, por parte do tradutor. Pois o significado das palavras, expressões, frases etc. do original pode ser pesquisado. O tradutor de livros tem tempo (às vezes!) para isso: as palavras não vão fugir do papel. A questão decisiva é como concretizar aquele significado em português. Há sempre várias maneiras disponíveis. Escolher qual delas, compor e combinar as soluções, levando em conta o conjunto do período, do parágrafo etc. -- essa é a dificuldade real. Essa é a chave de todo o trabalho. Em larga medida, trata-se de um problema prático e, de certo modo, até de um trabalho braçal.
4. Como você analisa a situação atual do mercado editorial brasileiro em relação à literatura clássica? Considera que houve um avanço ou retrocesso nesses últimos anos? Que existe muita literatura para ser traduzida e retraduzida ainda, nós sabemos, mas você vê um impulso de continuar divulgando e traduzindo esse tipo de obra?
Não sei avaliar. Nunca entendi o mercado editorial brasileiro. E agora menos ainda. Mas, no caso específico da literatura russa, parece inegável que, nos últimos vinte anos, surgiram mais oportunidades para publicação do trabalho de tradutores brasileiros. O que permitiu também o crescimento do interesse do público por essa extraordinária e incomparável tradição literária. Mas há forças contrárias a isso! E elas podem estar onde menos se espera. Não tenhamos ilusão. Vamos ver quanto tempo resistimos. Tomara que o interesse do público se consolide e dure muito tempo, ou mesmo para sempre.
5. Para terminar, a posição do tradutor durante a história da literatura sempre foi uma história tumultuada. Como o senhor enxerga a posição do tradutor nos dias de hoje, onde a produção humanística se encontra cada vez mais encurralada pelo desenvolvimento da sociedade como a encontramos?
Bem, posso estar sendo ingênuo, mas em tese o tradutor serviria como um instrumento para que os vários povos se conhecessem e se compreendessem, e desse modo se consolidasse a ideia de que suas culturas diversas constituem um patrimônio humano comum. Mas, vejam só o meu caso. Só depois de traduzir mais de cem livros de autores estadunidenses e ingleses (ou líbios, iraquianos, vietnamitas etc, mas contanto que radicados nos EUA, naturalizados estadunidenses ou ingleses, que escreviam em inglês e sob a orientação de agentes literários, também estes associados a ongs etc.), eu tive de contar com um lance de sorte, com uma momentânea circunstância favorável, para conseguir traduzir livros russos clássicos. Livros já reconhecidos mundialmente, há muito mais de cem anos! Ou seja, a tradução se apresenta aqui, entre nós – e em geral - como um instrumento acessório do processo de colonização. E o tradutor, sem querer, faz o trabalho de porta-voz do dominador. Mas se tivermos consciência disso e não quisermos enfeitar a situação com frases bonitas, às vezes é possível escapar um pouco e resistir.
Autores: Alice Castro, Diogo Andrade, Felipe Fauri, Fernando Dias, Helena Schaffner
